• Caio Lisboa de Souza

ENTREVISTA: Alexandre Beck, presidente do Serrano FC

Em conversa no Atílio Marotti, o presidente falou sobre a boa campanha em 2016, e sobre os problemas que vieram em seguida. Alexandre também se mostrou empolgado e esperançoso com a nova fase do clube, gerido agora pela empresa Interfut.



O presidente do clube contou pra gente sobre a situação pré 2016, onde estavam com dificuldades financeiras a ponto de ter que deixar o futebol de lado para priorizar a manutenção do patrimônio do clube.


Em 2016 o time voltou ao cenário profissional após campanha do jornalista Eduardo Monsanto, trazendo a torcida para junto do clube financeiramente e emocionalmente. Mas nem tudo são flores. Após o acesso para a série B, os resultados esperados não chegaram, as contas começaram a acumular, e em 2019, o patrocinador master do clube não honrou o contrato, deixando o clube enrolado financeiramente, até porque tinham feito todo um planejamento em cima da receita daquele patrocínio.

Mas em 2020 se iniciou uma nova fase para a história do Serrano, como dito por Alexandre, eles fecharam o maior contrato da história do clube. O contrato em questão é com a empresa Interfut, que será responsável pela gestão do futebol do clube. Na proposta de contrato estavam previstas reformas no campo e no estádio, maior patrimônio do clube, além de uma mega estrutura na Barra da Tijuca, com toda uma equipe acompanhando os jogadores, como nutricionistas e fisioterapeutas, além de tecnologias de equipes de ponta, como o monitoramento dos jogadores com GPS durante os jogos e treinos.

A meta do clube este ano é o acesso para a divisão de cima, e segundo o presidente do clube, eles podem inclusive brigar pelo título esta temporada visto que têm uma estrutura de ponta e um elenco bem qualificado.

O presidente se mostrou muito feliz com a parceria com o Interfut, visto que pode elevar o patamar do Leão da Serra, trazendo assim além da admiração dos petropolitanos novamente, novos torcedores. Nessa nova fase, o Serrano quer também nacionalizar sua marca, para ser reconhecido e respeitado em todo o país.

Confira a entrevista completa:


Caio: Em 2016, na volta às competições estaduais, quais eram os maiores desafios pro clube?


"Era a retomada do futebol profissional. Porque nós jogamos até 2014, mas em 2015, no ano do centenário, nós tivemos outras prioridades, que eram um passivo muito grande que o clube tinha. Então a gente ou jogava o campeonato, ou amenizava isso e dava garantia do clube ter continuidade. Porque a gente vinha de um leilão, onde houve uma arrematação em 2013, então o risco era eminente de se perder todo o patrimônio, então a prioridade foi realmente cuidar desse lado."
"E 2016, o Dudu Monsanto me procurou no finalzinho de 2015 com essa proposta de voltar à atividade o futebol profissional. A ideia foi legal, deu certo no primeiro ano, que a gente conseguiu logo o acesso, mas as dificuldades são muito grandes de fazer futebol profissional e acabou que nos anos seguintes a gente teve muita dificuldade financeira, inclusive fechando com o patrocinador master que deu aquele verdadeiro calote né, não pagou, e toda aquela estrutura montada em cima desse patrocínio acabou tendo que ser mudada, então os resultados realmente no campo ficam mais complicados."


C: Como foi ver a movimentação da cidade para acompanhar o clube? Ver quem acompanhou o Serrano no passado levando seus filhos ao estádio para assistirem as partidas do Leão da Serra...


"A história do Serrano é muito bonita né, acho que boa parte da população de Petrópolis em algum momento participou dos tempos áureos lá na década de 80, 90. Mas as dificuldades começam a aparecer a partir daí. As leis ficam mais severas, os eventos são mais difíceis de serem realizados por conta do Corpo de Bombeiros e outras exigências, o Ministério Público começa a atuar, o quadro social vai diminuindo. E o futebol também muda muito a partir de 2003, com o Estatuto do Torcedor, se torna bem mais profissional e as exigências passam a ser de adequação de estádio, de responsabilidade com o jogador. A fiscalização começa a ser muito grande."
"E aí tivemos uma oportunidade de tentar novamente em 2016. Voltamos bem, o Dudu era âncora da ESPN naquele momento, então ele tinha bastante oportunidade de falar de Serrano a nível nacional, até mundial em seus programas, e isso fez com que despertasse novamente no torcedor a vontade de comparecer aos jogos. Tivemos uma frequência boa nos últimos anos, mas o futebol sempre funciona com os resultados: quando o resultado não vem, o público desanima e ai tudo que se tentou nesses últimos anos como sócio torcedor, algumas ações desse tipo, acabam ficando mais complicado quando o resultado não é bom dentro do campo."


C: Após a boa campanha na Série C em 2016, quais fatores levaram o clube a se manter na parte de baixo da tabela nos três anos seguintes?


"Foi o somatório de situações que eu expliquei anteriormente. Os resultados foram difíceis, o patrocinador que falha, as despesas que acabam enrolando o andamento, o salário dos jogadores que atrasa. Isso tudo é uma receita pronta para o fracasso do futebol."

C: Hoje, o clube tem uma parceria de gestão com o Interfut. De qual parte surgiu a ideia da parceria, e como ela pode render frutos ao Serrano?


"Interfut é um braço da Klefer, que é a empresa do Kléber Leite, ex presidente do Flamengo, na qual o proprietário é o filho dele, o Klebinho. Ele trouxe essa proposta, nós sentamos à mesa no final do ano passado e a proposta começa cativando o que a gente tem de mais orgulho, o nosso maior patrimônio, que é o nosso estádio."
"A proposta começa por uma ampla reforma, o que facilitou o trammit interno do clube, junto ao conselho deliberativo, e garantias, garantias bancárias que dão suporte a qualquer momento se houver algum revés, alguma coisa que a gente tenha como suportar e não deixar dívida. Então acredito que essa parceria que contempla essa reforma, seja o maior contrato da história do clube, não tenha a menor dúvida disso. E foi bastante discutida, analisada, até que a gente assinasse essa parceria em janeiro desse ano."


C: Foi uma iniciativa do Interfut trocar o gramado? Como foi a ideia para a "troca" de mascote e o que isso pode acrescentar para a imagem do clube?


"O Interfut, em contrato, já previa essa reforma do gramado, como a reforma do estádio em geral."
"A troca do mascote é uma mudança para o clube ter uma identidade digital e poder ser reconhecido a nível nacional. Assim que você abrir o Facebook por exemplo, uma notícia do Serrano com a identidade do clube, o torcedor do Brasil inteiro vai saber do que se trata. É uma profissionalização das mídias do clube, coisa que a gente não conseguia no passado."


C: Geralmente, as equipes de menor poderio financeiro contratam pontualmente, para a disputa de um campeonato específico, e o Serrano está fazendo isto em 2020. Com a proximidade do Campeonato Carioca, como isso pode afetar o desempenho do time dentro de campo?


"Os contratos vão ser todos assinados agora, tão somente a Federação defina a data de início, que aí vamos ter prazos dentro do Estatuto do Torcedor a cumprir. Os contratos são pautados no profissionalismo, a garantia de que o mês vai ter 30 dias. Eu tenho certeza de que isso dá tranquilidade para o atleta desempenhar o melhor futebol."
"O gramado também de qualidade, a estrutura montada. Hoje o Serrano dispõe de um centro de treinamento na Barra da Tijuca de primeiro mundo, a nível de clubes de primeira divisão, aonde tem fisiologista, nutricionista, fisioterapeuta, preparadores físicos, os jogadores vão jogar e treinar monitorados por GPS. É uma estrutura que dá tranquilidade para o jogador desempenhar o seu trabalho, e aí as chances de retorno para a primeira divisão aumentam."

C: Como as categorias de base do clube se prepararam durante a paralisação? Era uma vontade do clube utilizar alguns atletas da equipe sub-20 na disputa do Carioca Profissional?


"Já tem alguns atletas sim, que a gente não pode anunciar ainda, que vão compor o elenco. "
"Hoje a gente tem dois núcleos, um no Rio e um em Petrópolis. As categorias sub-11 e sub-13 de Petrópolis estão treinando remotamente já há três meses. Fazem os trabalhos na sua residência, dentro do quarto, da sala, do quintal, eles dão o jeito deles. A gente manteve o vínculo com esses atletas até que liberem os treinos. Liberando, a gente está assinando agora novamente, pelo quinto ano seguido, uma parceria com o Batalhão e os treinos vão acontecer lá a partir da liberação das autoridades."


C: Quais são as expectativas e os desafios do clube para o Carioca de 2020?


um campeonato atípico né, porque a gente não consegue ver a preparação das outras equipes, porque tá todo mundo confinado. Então não da pra afirmar quantas equipes vem realmente para brigar, quantas estão bem preparadas. Então é aguardar o início da competição pra gente ter um parâmetro da realidade do campeonato."


C: Para 2021, será criada uma nova divisão do Carioca, a Série A2. E os 6 primeiros colocados na B1 este ano se classificarão para ela. É uma realidade possível para o Leão da Serra?


"Sim. Com essa estrutura toda e o elenco que está sendo montado é bastante viável a gente brigar pelo título e pelo acesso, não tenho a menor dúvida."
"Isso é uma decisão da Federação, que criou essa nova nomenclatura nas divisões. A A1 que vai ser a primeira divisão, realmente com os grandes clubes, a A2 com 12 clubes, a B1 com 12 também, e assim por diante. Eles querem que as divisões tenham no máximo 12 equipes, pra que o campeonato fique mais competitivo e o acesso e decesso mais brigado."


C: Qual o maior adversário do Serrano em 2020?


"Como eu disse, é muito difícil a gente saber os adversários. A gente sabe que algumas equipes estão se preparando bem, como Sampaio Corrêa, Artsul, Olaria, Audax, Goytacaz, equipes que vem pra brigar. Vamos esperar mesmo o início. As dificuldades são inerentes de um campeonato pegado, um campeonato muito difícil, um nível bem parecido das equipes."


C: Quais são os objetivos do Serrano a curto, médio e longo prazo?


"A curto é organizar o seu estádio, que já está sendo realizado, montar uma equipe competitiva e brigar pelo acesso."
"A longo prazo é criar em nossa categoria de base jogadores que a gente possa no futuro negociar e aí alavancar o clube num todo. Até porque o futebol é feito disso, as grandes equipes acabam tendo que vender 1 ou 2 jogadores por ano pra poder manter né. Então a ideia a longo prazo é essa, elevar o Serrano de patamar e fazer com que o clube se torne um dos grandes no Brasil."


C: Como você enxerga o Serrano daqui a 10 anos?


"Grande, com história e cativando novos torcedores. E se mantendo o máximo do tempo na primeira divisão. Chegando no nível de equipes como o Volta Redonda, que há muito tempo ficam na primeira divisão e se mantém. Essa é a ideia do Serrano."
"Além de resgatar a alegria do torcedor aqui de Petrópolis, a paixão pelo Serrano, e quem sabe fazer uma nova torcida né, onde os jovens vão torcer pelo Serrano e não para os times grandes do Rio de Janeiro."

A Série B1 do Campeonato Carioca teve seu início adiado, e a previsão é de que a primeira rodada seja no início de setembro. A primeira partida do Serrano é contra o Serra Macaense, fora de casa.


As demais partidas do clube na Taça Santos Dumont (1° turno) são contra Audax Rio (C), Olaria (F), Duque de Caxias (C), Rio São Paulo (F), Maricá (C), Gonçalense (F) e Nova Cidade (C).


Imagens: Caio Lisboa.