• Manuela Sá Pereira Costa

MULHERES QUE FIZERAM HISTÓRIA: Aida dos Santos

Aida dos Santos, ex atleta brasileira, especialista em salto em altura, é um exemplo de mulher que não conhece a palavra desistir. Pioneira do atletismo no país, Aida bateu recordes mesmo sem nenhuma estrutura e apoio para a prática do esporte.



De origem muito humilde, quando criança morava no Morro do Arroz, em Niterói. Caçula de 6 filhos, vivia em uma casa sem energia elétrica. Enquanto estudava, trabalhava como doméstica para poder comer. No tempo livre, gostava de jogar vôlei no Complexo Esportivo Caio Martins, porém dependia de outras pessoas estarem no local para jogar também.


A atleta ingressou no atletismo devido a chantagem de uma amiga


Aida tinha uma amiga que praticava atletismo e também lhe dava carona pra casa. Certo dia, essa amiga a chantageou, disse que não a levaria pra casa se Aida não fosse no atletismo com ela. E assim percebemos como ela já possuía um dom para o esporte: em seu primeiro salto, ela saltou 1,40m, apenas 5 centímetros a menos que o recorde estadual.


Logo as notícias correram, e o Fluminense a chamou para ser atleta. Mesmo assim, a situação ainda não era fácil. Ao ganhar sua primeira competição, não teve o apoio dos pais, e até apanhou de seu pai, que disse que medalha não enche barriga. Ainda assim a atleta persistiu, se tornando atleta do Vasco. Infelizmente, ela não conseguia ir treinar, pois o dinheiro que o clube lhe entregava para as passagens era confiscado pelos pais para comprar comida. Mesmo assim, Aida ainda ganhava as provas que participava.


Em certa competição, Aida atingiu a marca de 1,65m, e foi avisada por seu técnico que havia batido o índice de classificação para as Olimpíadas de Tóquio (1964).


Descredibilizada até pelo seu próprio técnico, Aida não se abalou


A atleta enfrentou o grande desafio que tinha pela frente: participar das olimpíadas sem estrutura alguma. Sendo a única mulher na delegação daquele ano, enquanto outras atletas de salto tinham até 3 técnicos, ela não tinha nada. Sem intérprete e material esportivo, só lhe deram um camisa, um short e um agasalho do time de futebol. Para saltar, teve que pedir um uniforme emprestado ao Botafogo, além de ter que usar um tênis para corridas de curta distância, que fora cedido por um fornecedor que sentiu pena da atleta, visto que não tinha a sapatilha de prego própria para a modalidade.



A atleta conta que apesar de chorar todos os dias e ter muito medo, em momento nenhum pensou em desistir. Se classificando para a final com um salto de 1,70m, teve de recorrer à um médico cubano para ajudá-la com o pé, que havia torcido após uma prova. A botinha feita pelo mesmo possibilitou que ela participasse da final, e ficasse em quarto lugar com um salto de 1,74 m, ficando poucos milímetros atrás de suas outras adversárias. Essa marca de salto foi o recorde nacional por mais de 30 anos.


A falta de apoio do seu país na competição foi exposta pela atleta em uma entrevista, de forma enfática. De acordo com Aida, esse foi o motivo que a deixou fora das Olimpíadas de 1972.


Ela também recebeu a medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de 1967, no pentatlo, se mostrando uma atleta extremamente versátil.



Por muito tempo, a atleta fazia faculdade de manhã, trabalhava a tarde e treinava de noite. Se formou em Educação Física, Geografia e Pedagogia. Aida diz que o esporte abriu as portas para os estudos, lhe dando bolsas em faculdades e proporcionando todas suas formações que, de acordo com ela, são a razão de estar onde está hoje.


Todo o incentivo que não recebeu, Aida deu e ainda dá a seus três filhos. Um deles é Valeskinha, jogadora profissional de vôlei que em 2008 conquistou a medalha de ouro em Pequim.


Além disso, Aida criou também o Instituto Aida dos Santos, que fornecia aulas de vôlei, atletismo e reforço escolar, tudo sem custos. O único requisito era estar estudando. Infelizmente o projeto teve fim após dez anos de funcionamento, pois muitos de seus alunos estavam sendo assaltados ao saírem do local das aulas para ir para casa.


Aida é uma mulher de garra que deve ser admirada. Mulher negra pioneira no atletismo, persistiu em uma situação que muitos desistiriam, e é um exemplo de perseverança e força.


Imagens: Google Imagens.