• Márcio Guerra

TALENTO NÃO FALTA

Por: Márcio Guerra


É muito comum, quase inevitável, que a mídia esportiva e os torcedores brasileiros questionem a qualidade técnica do nosso futebol. Inevitavelmente fazendo comparações com o passado. Acho temerária essa atitude e, até mesmo, equivocada. Me lembro que, ainda muito novo, vi a Copa do Mundo de 1970. Um time inesquecível. Certamente uma das melhores seleções que tivemos. Qualquer jovem que assistir um vídeo daqueles jogos vai estranhar a velocidade da partida (muito lenta em relação ao que é hoje), a marcação, o esquema tático, tudo muito diferente.


Toda comparação que se faça no futebol não pode desconhecer o tempo, as condições físicas e as evoluções que o futebol sofreu. Seja no peso e constituição da bola, no uniforme, nos equipamentos, recursos tecnológicos e até o maldito VAR. Nós, botafoguenses, sempre exaltamos os times dos anos 50 e 60, quando dividíamos com o Santos, os melhores times do mundo. Não dá para dizer que o problema esteja somente na qualidade técnica dos jogadores. Seria muito simples.


Ano passado, muitos de nós ouvimos os torcedores do Flamengo (inclusive os que não viram a geração de Zico e companhia) dizendo que o time de 2019 era superior ao dos anos 80 do clube. Quem viu o Galinho e seus coadjuvantes pode achar um sacrilégio a comparação. Chamar Gabigol de craque é uma ofensa a muitos verdadeiros craques que o clube teve. Os vascaínos agora estão tentados a transformar Cano no craque do time. Quando lembro de Dinamite, fico até com vergonha do que ouço.


E assim acontece com todos os outros clubes. Palmeiras de Dudu e Ademir da Guia. São Paulo de Serginho, Portuguesa de Dener. Cruzeiro de Tostão, Paizza. O Galo de Reinaldo. Isso significa que os atuais jogadores brasileiros não têm qualidade? Claro que não. Continuamos sendo o país que mais exporta talentos para a Europa. Aí, eles chegam lá e nós, com o Complexo de Vira Latas (expressão criada por Nélson Rodrigues para falar da nossa inveja de tudo que é da Europa), os endeusamos.


A imprensa brasileira contribuiu muito para esse estereótipo sobre os nossos jogadores. A cada ano critica o nível técnico dos nossos times, mas quando eles têm seus talentos comprados por clubes estrangeiros, acha tudo bom. E aí, inevitavelmente, recorre ao passado para desqualificar os que aqui permanecem. Não acho que seja esse o caminho. Os jogos do atual Campeonato Brasileiro podem ainda não ser do nível esperado. Sim, correto. Mas daí  desqualificar nossos times, para mim, é errado.