• Márcio Guerra

UM EXEMPLO ESPORTIVO

Por: Márcio Guerra


Amigos, houve um tempo que alguns intelectuais brasileiros afirmaram que o "futebol é o ópio do povo". Outros trataram também o esporte como algo oferecido ao povo brasileiro como "pão e circo". Até que o antropólogo Roberto DaMata, sabiamente, mostrou a essa gente o grande equívoco de se achar que o atleta, o torcedor, são massa de manobra. Que as alegrias e decepções no esporte, especialmente no futebol, são válvulas de escape. Entendo que, na verdade, muitos atletas mal preparados, omissos ou alienados contribuíram para essa imagem equivocada. Também as tentativas de uso político do esporte tem parcela de culpa.


Mas a história do esporte mostra belos exemplos de atletas que souberam aproveitar o esporte, a fama, para se posicionarem além dos campos, quadras, raias. No futebol, Afonsinho, Sócrates, Casagrande, são exemplos disso. No vôlei, Bernard, Montanaro, também. Recentemente, alguns atletas paralímpicos também agiram além do esporte, se posicionando em defesa de questões sociais e políticas. Marta, nossa maior atleta feminina, nunca abaixou a cabeça para o sistema.


O mundo assiste agora um belo exemplo, justamente num esporte praticado pelos "riquinhos". Lewis Hamilton, além de excepcional piloto, podia se aproveitar da fama e dos títulos, para tentar "embranquecer" e ficar omisso as questões raciais. Não. Ele protesta, ele faz o mundo milionário da Fórmula Um ouvir o grito contra o racismo. Ele grita que "vidas negras importam". Ele chora e age contra o desleixo dos governantes diante da Covid. Um papel tão importante que gerou uma ação inédita no automobilismo, que é a mudança da cor do seu carro, para a preta, como uma maneira de se posicionar.


O que todos nós, que temos um mínimo de clareza sobre o mal que o fascismo e o endireitamento dos governos pelo mundo está causando, esperamos isso dos atletas. Bom desempenho na competição e conduta de cidadão que tem o poder de influenciar a comunidade que o acompanha, combatendo a discriminação, o autoritarismo, o machismo, a homofobia, a fome, a desigualdade. Lewis Hamilton nunca será lembrado somente como campeão, mas como alguém que saiu fora do padrão de pobreza intelectual e agiu em favor do próximo. Obrigado campeão. O mundo precisa de muitos atletas como você.